DE 27 DE SETEMBRO A 04 DE NOVEMBRO

ALGORAB


“Aquilo que vemos vale – vive – apenas por aquilo que nos olha.”
(Georges Didi-Huberman)

Algo de assombroso e ao mesmo tempo familiar nos encara de volta quando olhamos para as imagens de Rodrigo Linhares. O olhar parece desorientado, perdendo-se no jogo de representações proposto pelo artista. As cenas são quase sempre labirínticas, repetindo-se em camadas. Logo reconhecemos que aqueles lugares são eventualmente os mesmos onde estamos – e que a representação do próprio artista, em autorretratos, também se multiplica de forma semelhante, em um limite entre ausência e presença, superexposição e desaparecimento.

Começamos a notar esse processo com a fotografia talvez mais enigmática desta exposição, vista apenas a partir do segundo andar da galeria. Ocupando toda a parede dos fundos da área externa, quase escondida atrás de uma árvore, a imagem retrata o espaço da cozinha exatamente onde estamos posicionados ao olharmos para a foto. Nela, Rodrigo aparece em primeiro plano à esquerda, com o rosto encoberto por uma camiseta, mas também em uma imagem ao fundo, à direita, reproduzida em formato retangular que lembra o tamanho de um espelho – um reflexo, no entanto, impossível, sem o referencial ali presente. A ideia de uma desorientação, “experiência na qual não sabemos mais exatamente o que está diante de nós e o que não está, ou então se o lugar para onde nos dirigimos já não é aquilo dentro do qual seríamos desde sempre prisioneiros”, como descreve Didi-Huberman, atinge aqui seu ponto máximo.

A imagem produz também outro efeito revelador no procedimento do artista: se há uma expansão do espaço, que vai se multiplicando em camadas, o tempo parece preso ao instantâneo – o registro de uma ação que poderia estar acontecendo naquele momento, assistida através do vidro da cozinha. Claro que a dúvida não dura muito tempo pela simples razão das imagens serem em preto-e-branco. Por outro lado, a ausência de cores reforça o sentido “quase documental” daquelas fotos . O termo é associado ao trabalho do artista canadense Jeff Walls, que abriu mão da fotografia colorida em 1996 como uma estratégia de reforçar o aspecto instantâneo de suas imagens encenadas. A ideia se aplica bem às situações criadas por Rodrigo, entre o voyeurismo de se olhar através uma realidade crua, por vezes banal, e uma ação realizada especialmente para a câmera.

Se a fotografia já se apresenta naturalmente como uma mídia especular – um “espelho do mundo”, seja ele translúcido ou opaco, – o autorretrato reforça ainda mais essa característica. Nesta performance fotográfica mais recente, Rodrigo volta a explorar a noção de espelhamento de outra maneira. Além de sua própria imagem e dos ambientes ao seu entorno, um novo elemento passa a entrar no jogo de reaparições e duplicidade visual. É a figura de um corvo, desta vez, que parece contaminar todos os espaços e situações – seja nas sequências de imagens com representações variadas do animal ou como pura referência nos movimentos de transfiguração entre homem-pássaro encenados por Rodrigo.

Em uma dessas fotos, o artista aparece com apenas um olho à mostra e o resto do rosto ocultado pela camiseta parcialmente vestida. Embora esteja de perfil, por alguns instantes imaginamos o ver em posição frontal – o que torna o fato de vermos apenas um olho mais intrigante e sugestivo, quando se lembra das lendas associadas ao corvo. Em outra sequência, ele encara a câmera da mesma maneira que o faz o pássaro, reproduzido em uma imagem nas mesmas proporções que as suas, reforçando uma espécie de fusão entre sua própria identidade e a do animal.

Associado a uma série de significados simbólicos, o corvo vai aparecendo na exposição tal como foi surgindo para o artista em seus primeiros indícios: uma sequência de imagens acumuladas nas paredes do ateliê que aos poucos foram contaminando sua própria representação naquele espaço. O título da mostra também surge a partir dessa ideia. Na astrologia, algorab faz referência a a nomenclatura em árabe de uma estrela localizada na constelação de Corvus.

Mas é pela ideia de aparição, de imagens que retornam de tempos em tempos em busca de novas leituras, que a figura do corvo pode ser melhor compreendida nesta exposição. É nesse sentido que Didi-Huberman fala sobre a desorientação mencionada acima – como um dos paradigmas que explicam o “estranho-familiar”(Unheimliche) no conceito freudiano, uma inquietação sobre algo reconhecível porém aterrorizante, que foge à racionalidade. O animal também é visto de forma semelhante no poema de Edgar Allan Poe, sua representação literária mais clássica: um pregador da destruição que repete ao narrador desiludido a mesma frase desoladora: “Nunca mais, nunca mais.”

Sua imagem, ao contrário, não parece ter desaparecido. Em tempos sombrios, ela se mostra cada vez mais presente, encarnada sob outras formas e figuras talvez não tão aterrorizantes, mas não menos familiares.

Nathalia Lavigne

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Sobre o Artista
Rodrigo Linhares(Santa Maria, Rio Grande do Sul, 1977), é graduado em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Santa Maria (2003). Foi premiado no 42º SARP (2017) e no 44º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (2016). Participou da coletiva “Para que eu possa ouvir”, exposição inaugural da Adelina Galeria, em 2017. Como artista residente do Projeto Fidalga, expôs a individual “Desaparecimento: Primeiros Estudos” (2016). Vive e trabalha em São Paulo desde 2002.


Sobre o Curador
Nathalia Lavigne(Rio de Janeiro, RJ,1982) é crítica de arte, pesquisadora e curadora independente. Doutoranda no programa de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, é mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela Birkbeck, University of London. Escreve para publicações como ArtReview, Artforum, Select, entre outros. Foi uma das pesquisadoras do projeto “Observatório do Sul”, plataforma de discussões promovida em 2015 pelo Sesc São Paulo, Goethe-Institut e Associação Cultural Videobrasil.


Serviço
Período: de 27 de setembro a 04 de novembro.
Horário de visitação: de terça a sexta-feira, das 10h às 19h; e, aos sábados, das 10h às 17h.
Entrada gratuita.


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