DE 16/11/17 A 13/01/18

16.02|27.09|19.10|CURITIBA: A COISA EM SI
ou O mundo sem vontade de representação.



Paulo Gallina
Algo digno de nota na produção recente de Tatiana Stropp é sua capacidade de apresentar uma pintura por si. Livre da oposição entre a figuração e a abstração, a pintora constrói imagens através da relação entre as cores. Como o azul associa-se ao matiz laranja? Ou ao cinza? Como o lilás toca o vermelho? Perguntas abstratas a maioria dos observadores e partes da resposta procurada pela artista curitibana. A técnica impera na discussão: sem notar-se a sutileza do método, não é possível compreender o que a artista realmente busca. Uma vez que a pintora não está pesquisando como as cores se misturam – elaborando outras tonalidades –; a imagem de suas pinturas é a desconstrução da ilusão de perspectiva mimética. Não há um reflexo de mundo para apreciar-se nos trabalhos de Tatiana Stropp, há uma pintura reveladora de seus materiais e processos.
A linha, por exemplo, é um elemento desta pesquisa merecedor de alguma ponderação: As cores e suas tonalidades organizam-se na repetição linear de áreas coloridas. A irregularidade da mão que controla os largos pincéis é mais ou menos clara. Poucas vezes a artista se utiliza da ajuda de máscara na construção de suas linhas. Este dado corriqueiro, em verdade é revelador de que a pesquisa sensível não atravessa o escopo cientifico em sua vontade de mesurar ou equalizar o que é naturalmente irregular.
Ao fim, a leitura da obra de Tatiana Stropp é reveladora de um estudo sobre a natureza das cores, atravessadas pela percepção cultural de nosso presente. Afinal, ao invés de falsear uma suposta objetividade, a artista aceita a subjetividade de seu tempo para obter as conclusões que ela é capaz de apreender de seu estudo. Ao contrário do discurso jornalístico ou científico, os quais entregam suas conclusões em manifestos ou tratados, a pintora provoca ao público com pinturas capazes de incitar as perguntas que deram forma à série de trabalhos. As relações colóricas pesquisadas por Tatiana são de conhecimento público, porque estão plasmadas em suas pinturas; conquanto as respostas exigem dos observadores o contato epidérmico com a imagem. Em tempo, o olhar começa a dissecar o que vê, a separar o que é um recurso técnico necessário à forma e o que é um recurso técnico revelador de conteúdo discursivo.
Notadamente, conhecer o histórico de produção da artista revela com maior clareza onde estão as premissas plásticas e teóricas na obra de da pintora curitibana. A superfície, sem dúvida, é uma pesquisa relevante na trajetória da artista. Ao estudarmos as composições anteriores a fase apresentada nesta exposição, perceberemos como o recorte entre a superfície e as faixas de aplicação de tinta dentro das tradições em pintura formuladas na Europa depois da primeira guerra mundial. A pintura pós-moderna com sua vocação em revelar o suporte e integrá-lo à imagem foi ponto de partida nos anos dedicados à compreensão da pintura. Nesta produção recente, entretanto o suporte começou a ganhar formas, dobras que fazem a superfície avançar pelo espaço e retornar à tridimensionalidade, negada pela imagem, ao estudo da pintura. O suporte, transformado em objeto espacial, também revela-se ao observador na diluição das tintas, elemento que destaca a função da luz na percepção da cor.
Tome-se como exemplo a pintura 16.02. A composição, formada por duas peças com áreas sobrepostas, aproxima-se de características do espaço – por exemplo volume e sombra – para compor à natural bidimensional inerente a pintura. Se a cor esta aplicada planarmente sobre a superfície, a incidência de sombra altera a tonalidade percebida pelo olho. Ao explorar o espaço tridimensional, a pintura inaugural da pesquisa não se permite fingir um espaço falseado com altura, largura e profundidade; reiterando pelas cores apresentadas linha a linha as inescapável bi-dimensionalidade de toda pintura.
A subversão na peça 16.02 advém do fato de que a imagem, aquilo que representa, nasce na sobreposição de tintas e das peças, as quais criam interferências entre si. Se a base sobreposta projeta sombra e cor na parte próxima a parede, esta por sua vez define o ritmo do olhar capaz de tomar a peça. De pronto, Tatiana Stropp transforma seu trabalho em uma pintura capaz de operar áreas e espaços sem negar a planaridade da pintura. Como se fosse possível sobrepor infinitos planos cartesianos para formar um espaço tridimentsional que é pura potencia, porque não está limitado por leis naturais. E, neste contexto de imagens, o vermelho poderia significar tanto quanto a esperança ou a igualdade.
Para além do meandro em pintura, a presença de suporte inesperado revela algo também sobre a proposição de Tatiana Stropp. Tratando-se de uma técnica histórica, a pintura que estamos comentando inova na base que recebe o pigmento e a emulsão. A artista cria sobre telas de alumínio, recortadas e dobradas antes do processo em pintura iniciar-se. Esta subversão retorna ao espaço tridimensional uma técnica que anula a notação da perspectiva falseada dos italianos do século XV. A dobra no suporte é também uma linha, atravessando a superfície pictórica. Uma linha como são as cores, mas com a potência de rasgar a ilusão de imagem e retornar ao objeto e à imagem seu estado natural. Sem querer representar, as entidades dentro da pintura de Tatiana Stropp são também invasoras no mundo das selvas e pedras, porque como o pensamento humano são pura dúvida e sensação viva.
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Sobre a Artista
Tatiana Stropp (Campinas, São Paulo, 1974) formada em pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná em Curitiba (2003). Participou de diversas exposições, dentre elas destacam-se Translucent, Igallery, Palma de Mallorca Espanha (2016/17), 20 anos de Arte, Galeria Ybakatu, Curitiba. (2015), Diáfano, Galeria Via Thorey, Vitória. (2014), Bienal Internacional de Curitiba. (2013), ARCO Madrid 32ª, 31ª e 30ª edições, (2013, 2012 e 2011), representada pela Galeria Ybakatu, Estado da Arte: 40 anos de arte contemporânea no Paraná, MON - Museu Oscar Niemeyer (2010/11). Em 2012 e 2013 foi indicada ao Prêmio PIPA – Prêmio Investidor Profissional de Arte. Desde 2013 faz parte da plataforma de pesquisa em Arte Contemporânea Latino Americana Abstraction in Action. Integrou a seleção do projeto Catálogo Brasil exibido no canal Curta!, programa que visou catalogar a produção artística contemporânea em diversas regiões nacionais. Suas obras estão em coleções públicas como: MON - Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR, MUSA – Museu de Arte da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Fundação Romulo Maiorana, Belém, PA.


Sobre o Curador
Paulo Gallina M(Piracicaba, SP, 1985) crítico de arte e curador independente, formado em História pela Universidade de São Paulo (USP). Durante sua formação, participou do Grupo de Estudos de Crítica e Curadoria da ECA-USP orientado pelo professor doutor Domingos Tadeu Chiarelli (2009-2012). Colaborou com os espaços independentes: Ateliê OÇO (2010) e o Ateliê 397 (2013); como crítico residente, além de atuar como crítico e curador do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake (2010-2013). Ministrou cursos sobre história da arte em instituições culturais como o Insituto Tomie Ohtake (2013) e o Instituto Itaú Cultural (2014). Nos últimos anos curou as exposições: Nino Cais: Das Bandeiras e dos Viajantes (SESC, São Carlos, Ribeirão Preto e São Paulo, 2013); Primeira Leitura (Zipper Galeria, São Paulo, 2014); O saber da linha (LAB570, São Paulo, 2014/PINTA LONDON, Londres, 2015); Alguma coisa descartável (Museu de arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, 2014); Estruturas precárias (Galeria Paralelo, São Paulo, 2015); Apagamentos (Caixa Cultural, São Paulo, 2016); Soluções duradouras (Tal Galeria, Rio de Janeiro, 2017); A vida das pessoas extraordinárias (MNAV, Montevidéu, 2017); Máquina sem palavras (MFCC, Curitiba, 2017); Tudo que está coberto (Galeria Aura, São Paulo, 2017); entre outras. Tem textos publicados em livros e catálogos, destacando as leituras críticas do e-book O MAC essencial II e o ensaio elaborado para o catálogo da exposição Os primeiros 10 anos, realizada no Instituto Tomie Ohtake, na qual também foi um dos curadores.


Serviço
Período: de 16 de novembro de 2017 a 13 de janeiro de 2018.
Horário de visitação: de terça a sexta-feira, das 10h às 19h; e, aos sábados, das 10h às 17h.
Entrada gratuita.


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