DE 16/11/17 A 13/01/18

ENTRE(MEIOS


Érica Kaminishi: ascendências estéticas

João J. Spinelli

Reinterpretações formais de conceitos estéticos orientais constituem o vocabulário estético de Érica Kaminishi. Modulações circulares e ou sinuosas - distantes do prosaico - reforçam a pureza e harmonia de elementos culturais japoneses amalgamados pela artista às formalidades composicionais ocidentais. Associações e ou contradições destas culturas presentificam-se em suas obras. A criadora sutilmente incorpora, desvenda e ressignifica idéias-máximas nipônicas fundamentais: WABI-SABI-MA-MONO NO AWARE e a elegância refinada do MIYABI, reconfigurados pela artista à contemporaneidade. Memórias e resíduos culturais seculares são visíveis em suas criações tridimensionais. Distantes de padrões convencionais relacionam-se, integram-se no espaço expositivo em instalações diferenciadas: releituras coetâneas, sintéticas dos tradicionais jardins japoneses zen-budistas (que eram pensados para conduzir o espectador a um estado de meditação calma, contemplativa, considerados até hoje, por especialistas como uma das modalidades artísticas mais sublimes da cultura oriental) agora são reformulados pela percepção estética de Érica Kaminishi à atualidade. Uma nova maneira de representar visualmente ângulos incomuns de usufruição da arte associados simbolicamente a importantes elementos do patrimônio cultural japonês: JUN –suavidade; SO – simplicidade; SEI – pureza e GA – nobreza. O olhar subjetivo da artista estabelece conexões do Japão com a sua nacionalidade/identidade brasileira. Érica aproxima-se deste modo a uma alegoria – delineada por Vilém Flusser – da capacidade de apropriação cultural que o ser humano apresenta, em especial os artistas “de se distanciar do concreto da própria existência para encontrar meios expressivos de apreendê-lo e representá-lo de forma cada vez mais abstrata”, metafísica. Um outro segmento significativo da obra desta artista é marcado pela sua produção bidimensional. Formas circulares e ou sinuosas integram-se a tênues e delicados grafismos caligráficos constituídos de citações diferenciadas de obras de Fernando Pessoa. Este tipo de representação textual também está presente no zen budismo – “na cópia dos sutras sagrados” e representam uma forma de meditação chamada SHAKYOU. Formas amorfas, irregulares (que lembram nuvens) marcam vários momentos de sua obra, referem-se segundo a própria autora às idealizações do artista plástico japonês do período Momoyama (1573 - 1603) Tosa Mitsuyoshi, que com uma forma singular de registrar a passagem cronológica/temporal na sua pintura renovou de maneira surpreendente e inusitada o processo de representação pictural de então. Incisões e sulcos formais, sem cores, dialogam serenamente com os grafismos caligráficos e redimensionam a sua obra. Afiguram-se em alguns momentos como linguagens autônomas. Isentas de todo ou qualquer tipo de decorativismo, independentes, confirmam sua versatilidade artística. Indiciam, quem sabe, um novo proceder autoral diferenciado, minimalista, típico da arte japonesa que há séculos destaca no ato criador o conceito do Menos é Mais. Um vídeo documental da participação de Érica Kaminishi na exposição Transpacific Borderlands: The Art of Japanese Diaspora - Lima, Los Angeles, México City and São Paulo - Japanese American National Museum of Los Angeles (17 de setembro de 2017 a 25 de fevereiro de 2018) complementa esta mostra individual da artista na Adelina Galeria. Nesta instalação a floração da cerejeira - conhecida como a flor da felicidade – simboliza o momento de ruptura da introspecção advinda do fim do rigor do inverno no Japão para o desabrochar da primavera. Além da alegria festiva do Hanami, o florescimento e a visão da queda das cerejeiras (Sakuras) em flor revelam um aspecto reflexivo, melancólico do modo de vida japonês. Apreciar este acontecimento é tão significativo quanto o seu florejar, pois refletem as dificuldades adstritas da própria vida cotidiana, com suas mágoas e ou contentamentos inerentes ao próprio viver. Alegoricamente, a escolha de material industrializado – plástico – para representar nesta instalação a flor de cerejeira, reafirma o seu processo criativo de integrar à contemporaneidade os tradicionais valores orientais com a atualidade ocidental. Assim o ancestral e o atual, o passado e o presente convivem pacificamente e esteticamente complementam-se e transformam-se na linguagem visual de Érica Kaminishi.

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Sobre a Artista
Érica Kaminishi(Mato Grosso, Brasil, 1979) vive e trabalha entre Brasil e França. Bacharela em Artes Plásticas pela Faculdade de Artes do Paraná em Curitiba e mestre em Artes Visuais pela Nihon University em Tóquio, Japão, onde viveu por quase 10 anos. Operando nos limites da prática do desenho e da escrita caligráfica, sua poética explora os espaços: nos brancos da folha de papel, do espaço expositivo ou das trocas entre criador e espectador, em projetos de criação coletiva. Entre as suas individuais, destacam-se: “Jardim”, na Galeria Funarte em São Paulo, “Project N47”, na Tokyo Opera City Art Gallery, no Japão, e “Memórias Insulares”, no SESC Ipiranga. Participou também no Japão da Aichi Triennale 2010 e da Echigo-Tsumari Art Triennale 2012. Acumula ainda os prêmios: Mostra de Artistas no Exterior (Fundação Bienal de São Paulo) e a Bolsa Produção em Artes Visuais 2011 (Fundação Nomura, Japão).


Sobre o Curador
João J. Spinelli (Ibitinga, São Paulo, 1949) vive e trabalha em São Paulo. Mestre e Doutor (Universidade de São Paulo – ECAUSP); Livre docente (Universidade Estadual Paulista – I.A. UNESP); Titular (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – Fundação Santo André). Historiador, Crítico de Arte, Artista Plástico, Pesquisador de Arte Moderna, Contemporânea, Arte Pública e Arte Nipo-Brasileira. Professor de História da Arte na FAAP - Fundação Armando Álvares Penteado SP (1974 – 1987); Instituto de Artes da UNESP (1988-1998) e de Arte Pública no Curso de Pós-Graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (1998-2007). Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes do Instituto de Artes da UNESP (1996-1998). Supervisor Artístico-Cultural do Palácio dos Campos Elíseos SP (1992-1995). Curador do Acervo de Artes Plásticas da Secretaria Municipal de Cultura - BMA. Editor da Revista Mário de Andrade da BMA (1992-2002). Curador independente de 80 exposições de Arte Brasileira em museus, centros culturais e galerias de arte de Buenos Aires, Nova York, Brasília, São Paulo, Cuiabá: Pinacoteca do Estado, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte Contemporânea da USP, Centro Cultural São Paulo, Memorial da América Latina, Biblioteca Mário de Andrade, Palácio dos Campos Elíseos, Centro Cultural Recoleta – Buenos Aires, Museum Art Gallery – San Capistrano/Estados Unidos entre outros. Autor e/ou organizador de 20 livros com destaque para “Informelle Kunst in Südamerika”, Alemanha.( 2002); “Arte Pública – Apontamentos e Reflexões” (1999); “Arte Nipo-Brasileira” (2001); “O Olhar de Sérgio Milliet sobre a Arte Brasileira” (1992); “Criatividade – Uma Busca Interdisciplinar” (1999), “Takashi Fukushima” (2008); “Antonio Carelli – visualidades de um artista em constante evolução” (2010);) e da coleção “Os Impressionistas” (1993 e 1997). Coleção SESC de Arte Brasileira (2006) e “Alex Vallauri – Graffiti” (2011). Além de participar da ABCA (Associação Brasileira de Crítica de Arte), APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) da AICA (Associação Internacional de Crítica de Arte) é membro de associações de pesquisas da Universidade de Dortmund, Alemanha e da International Research Centre for Japanese Studies, Kyoto, Japão


Serviço
Período: de 16 de novembro de 2017 a 13 de janeiro de 2018.
Horário de visitação: de terça a sexta-feira, das 10h às 19h; e, aos sábados, das 10h às 17h.
Entrada gratuita.


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